quarta-feira, 24 de setembro de 2008

NOTÍCIAS DA POVOAÇÃO E FUNDAÇÃO DA VILA DA LAGUNA

Na biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, Secção de Manuscritos, Doc. Laguna S. Mss, 1,2,23; o autor do livro “Laguna antes de 1880”, Pe. João Leonir Dall’Alba, copiou na íntegra (o mau estado dos documentos não permitiram cópia) o documento. Trata-se da descrição da fundação de Laguna feita por um dos fundadores – Francisco de Brito Peixoto.
O autor lamenta o fato de o documento estar incompleto, razão pela qual, algumas interrogações ainda permanecem. A principal dela, creio, é a data de fundação. Para muitos o fato já foi esclarecido, mas para outros tantos ainda não.
Falaremos disto, especificamente, em outra ocasião.
NOTÍCIAS DA POVOAÇÃO E FUNDAÇÃO DA VILA DA LAGUNA
Por Francisco de Brito Peixoto
“Notícias da Povoação e Fundação da Vila da Laguna, feita por Francisco de Brito Peixoto, que foi Capitão Mor dela, e doou os seus serviços em seu sobrinho Diogo Pinto do Rego.
Por ser muito do gosto do Rei D. Pedro II, de gloriosa memória, a povoação da Vila da Laguna, entrou o Cap. Domingos de Brito Peixoto para dar princípio, mandando por mar um patacho seu, carregado de ferramentas, gente e muitos escravos, para irem dar fundo na parte onde lhe ensinaram, e desembarcar para dita paragem, que era uma enseada chamada Mampituba, e aí procurarem a Lagoa dos Patos - (os índios carijós da região eram chamados de Patos)- e principiarem a dita povoação. Teve a infelicidade de dar na costa, na altura de Abrolhos, donde se perdeu o dito Patacho e tudo o mais que nele ia.

Não desanimando o dito Domingos de Brito Peixoto, desta perda e infelicidade, por dar gosto ao Rei e Senhor, entrou com dois filhos seus, o Tenente Sebastião de Brito Guerra e Francisco de Brito Peixoto, a fazer conquista e povoação, por terra, levando muitos escravos e administrados seus e mais pessoas de sua obrigação que o acompanhavam. Depois de muitos trabalhos, percas e despesas , chegaram a dita paragem chamada Lagoa dos Patos, hoje Vila de Santo Antonio dos Anjos, donde estabeleceram e principiaram a dita povoação, afugentando muitos gentios, onças, tigres de que estava mui povoada aquela paragem, com perca de muitos escravos.
Depois de principiada e estabelecida esta povoação, morreu nela o Cap. Domingos de Brito Peixoto e o seu filho Sebastião de Brito Guerra, matou o gentio com veneno; ficando só Francisco de Brito Peixoto, que com valor igual a seu defunto pai e irmão continuou a povoação, fazendo nela Igreja para servir de Matriz e vindo a Santos e São Vicente donde tinham sido moradores, levar casais para a dita povoação. Vigário a quem também pagava a sua custa.
Depois de bem estabelecida e fundada esta vila, entrou o dito fundador Francisco de Brito Peixoto a explorar e descobrir as campanhas que se erguiam daquela povoação para diante, passando rios caudalosos, como são os de Araranguá, Bepetuba (Mampituba) e de Tramandaí e outros córregos. (Faltam páginas).

(Lamentável a falta destas páginas, queixa-se o autor e transcritor deste documento).Como o manuscrito não estando com as páginas numeradas ,ignora-se quantas faltam.
Que quando assim quando chegou ao dito sítio da Laguna fez por em terra os mantimentos e ferramentas que por mar tinha enviado na fragata e desembarcar AA gente que amariava; e vendo juntos começaram a examinar a fertilidade da terra e se tinha comodidades de habitação e por mais que tudo estava cheio de matos virgens e lagoas profundas com alguma parte de Campos, contudo, pela diligência que fizeram, acharam que podiam viver naquele sítio, cortando-lhe os matos para neles fazerem plantas de sustento e fazerem passagens para as lagoas em ordem a pescarem nelas e que ficavam os campos para os gados.
Que o suplicante com os mais resolveram a povoar aquele sítio e estando assim deliberados, sentiram naquela vizinhança andava gentio brabo e vagabundo, que não tinha domicílio em parte alguma, arreceando que os desinquietassem e lhe tomassem a povoação, depois de feita. Trataram de os conquistar e os repelir, para o que os buscaram e depois de os acharem, tendo com eles muitas refregas em que mataram bastante gentio, o qual também, nesta ocasião, lhe matou cinco escravos e fugiu para o costão adentro, deixando ao Suplicantee a seu Pai e Irmãos mais sossegados de seu receio.
Que assim como o gentio despejou aqueles matos e campos, tratou o Suplicante de fazer plantas assim nos campos como nos matos, que fez primeiro cortar e queimar e juntamente levantou casas para se recolherem e nelas morarem, como também a Igreja para receberem os Sacramentos e assistir aos Ofícios Divinos, que o mesmo suplicante mandava fazer por sacerdote que buscou a troco da grande porção que lhe fazia por não haver Clérigo ou Frade que quisesse ir para terras tão remotas e inabitáveis. E desde então até o presente conservou o sacerdote, no dito sítio, pagando-lhe e fabricando a igreja com todos os parâmetros necessários.
Que passando aproximadamente ano de habitação , achou o suplicante, pelo que tinha plantado que a terra era muito frutuosa e respondia bem com o trabalho que lhe faziam em mantimentos que lhe plantavam, como também que era muito abundante de peixe, por onde se animou a romper e cultivar muito mais terras e acrescentar as casas e para viverem nelas persuadiu rogou a várias pessoas de diferentes vilas que se fossem viver com ele naquela terra , dando-lhe ajuda e favor para se pararem nela, e demais todos os mantimentos necessários para viver enquanto não recolhessem frutos, que para os plantarem lhes dava também ordens, escravos, como de fato deu, e principiou a povoar até o presente. E demais mandou vir de várias e distantes partes muitas variedades de gado como: bois, cavalo, cabras, ovelhas, carneiros e produziram tato que hoje já de muitos anos, vem daquele sítio de todo gado vacum que se gastam em a maior parte destas Vilas do Sul e fora delas vão para a cidade do Rio de Janeiro, continuando muitas embarcações de carne salgada de que se provém as frotas que vão para o Reino, e inumeráveis couros de boi para a sola, e fora desta abundância manda outra semelhante de peixe salgado para a dita cidade e mais Vilas do Sul, que todas dependem da dita povoação, por ser só parte em que se salga o peixe e se manda fora a vender.
Que mostrando a experiência que o dito sítio produzia e a utilidade que dava ao gado e pescado seco, se foram muitas pessoas viver a ele obrigadas das ofertas e rogos que o suplicante e seu Pai lhe faziam e para ela mandaram vir embarcações por mar e outras comprou o suplicante e seu Pai, para trazer na carreira e prover os povos , onde se lhe perderam três carregadas, e se afogaram alguns escravos. E hoje de presente se acha o dito sítio feito uma grande povoação, pois tem mais de cinqüenta casais, fora os escravos , com tanta quantidade de gados que não é possível numerar-se nem extinguir-se, e de contínuo se vai acrescentando com novos moradores , pela utilidade que nela tem.
Que a dita povoação resultou um proveito comum a estas vilas do sul e a cidade do Rio de Janeiro , pelas carnes salgadas e peixe seco e legumes que tiram dela de que dando notícia o Pai do Suplicante ao Senhor Rei Dom Pedro II, foi servido mandar-lhe agradecer por carta este novo descobrimento e Povoação que fez com a promessa de o remunerar, a qual carta se perdeu em uma das ditas embarcações, porém haviam muitas pessoas que dela podem testemunhar.
(
Nota do autor: Talvez em suas aspirações estivesse uma COMENDA DO HÁBITO DE CRISTO, como seu colega Dias Velho, fundador da Vila de Nossa Senhora do Desterro)
Que assim o Suplicante como o Senhor seu Pai, enquanto foi vivo gastaram muita fazenda neste descobrimento e nele lhe morreu o outro filho solteiro, o Tenente Sebastião de Brito Guerra com muita quantidade de escravos que lhe mataram e se perderam.

Que o Cap. Domingos de Brito Peixoto, pai do Suplicante, faleceu na mesma povoação..."
Acaba assim, bruscamente truncado, o manuscrito da Biblioteca Nacional.

O texto está aí para interpretações e discussão. Este é o objetivo: rediscutir, recontar a história de Laguna.
Quem dispor de material, favor postar e citar a fonte.

domingo, 14 de setembro de 2008

INÍCIO

Na abertura do blog vou contar como começou esta idéia de recontar a história de Laguna.
Todos, ou quase todos sábados, nos reunimos no Iate Clube de Laguna para confraternizar.
O local é agradável, a paisagem é magnífica .
Foi neste ambiente que surgiu a idéia de criar o blog para recontar algumas histórias de Laguna.
Quem fala e estuda muito a história de Laguna é o Zeno Alano Vieira. Todos os sábados ele tem uma história diferente. Às vezes repete algumas.
Queremos compartilhar com voces, futuros leitores, estas histórias.
O Zeno vai começar contando sobre uma comenda que DOMINGOS DE BRITO PEIXOTO tanto desejou e não conquistou.
Depois que for postada, iniciaremos uma campanha para, "in memoriam", conceder, com todas as honras, esta comenda tão almejada por ele.